Uganga – “Seja sempre você, dê um foda-se pras modinhas musicais”

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O Uganga vem conquistando cada vez mais espaço no cenário musical, e o último trabalho do grupo, o ótimo Opressor, deixa bem claro que a banda não está de brincadeira, e quer se firmar de vez nesse concorrido cenário musical, pois é um trabalho original, pesado, coeso e com letras muito bem elaboradas.

O Heavy World aproveitou um tempo cedido pela banda e bateu um papo com os integrantes  do Uganga, que nos contaram várias coisas legais, confira abaixo essa excelente entrevista feita por Paula Alecio :

 

Heavy World – 1 Vocês acabaram de abrir o show de uma das maiores bandas do Thrash mundial, o Exodus (27 de janeiro de 2016, Curitiba-PR). Sabemos, pelas declarações feitas pela net, que é a realização de um sonho da banda. Conte-nos como foi!

Marco Henriques: Exatamente, foi um sonho realizado, uma noite inesquecível na história da banda. O Exodus é uma banda que é forte influência em nosso som, todos os integrantes gostam bastante, então pra nós foi uma honra. A receptividade do público de Curitiba foi fantástica, nem parecia que éramos uma banda de abertura. Galera colada no palco, rodas de mosh, alguns cantando nossas letras… Em noites como essa você vê o quanto vale a pena os anos de correria e muito suor na estrada do Rock.

Manu “Joker” Henriques: Eu cresci ouvindo Exodus! Montei minha primeira banda, Angel Butcher (1986), inspirado por clássicos como “Kill’ Em All”, “Show No Mercy”, “Fistful Of Metal” ou “Speak English or Die” só pra citar alguns. Mas com certeza o maior impacto foi “Bonded By Blood”, aquele álbum é irretocável, o número um do thrash na minha opinião! Desde então sou fã do Exodus, curto todas as fases e ter a oportunidade de tocar no mesmo dia que eles, trocar uma ideia com os caras e ter o Zetro ao lado do palco curtindo nosso set, foi algo pra levar consigo pra toda vida. Até os roadies deles nos elogiaram! E por fim ver o show dos caras, que foi perfeito mesmo sem Gary Holt.

 

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HW – 2 – Com o lançamento do último álbum em 2014, já consolidado e consagrado, o quarto de estúdio de vocês, abertura de shows importantes… Quais os planos para 2016?

Marco: Em breve lançaremos a versão em vinil do “Opressor” que já está sendo prensado. Depois lançaremos o DVD de 20 anos da banda, com vários registros de nossa história, ambos pelo selo Sapólio Radio. E ainda temos planos pra mais um videoclipe que deve sair no segundo semestre.

Manu: Estamos na pré-produção do nosso próximo trabalho que possivelmente será um EP, mas isso pode mudar (risos). Inclusive tocamos em Curitiba a faixa “Medo”, a primeira que saiu dessa fase com três guitarras. O processo está indo bem e creio que até o segundo semestre a gente tenha tudo pronto. Quando lançar vai depender do cronograma desses outros lançamentos, vinil, DVD etc… Também fechamos com a “Defense Records” da Polônia o lançamento do “Opressor” na Europa em 2016.

 

HW – 3 – Como são filhos do triângulo Mineiro, e prezam por letras provocativas e intensas mostrando uma alma critica, queríamos saber o que vocês teriam a dizer sobre o desastre ocorrido em Mariana.

Manu: Dinheiro, ego, descaso com a vida e com o semelhante. Nossos políticos são movidos por isso não é de hoje. O que vai acontecer? Quem será punido? Qual o impacto disso tudo no meio ambiente, no mar? Ainda não sabemos, mas tenho certeza que o “boleto” vai chegar, de um jeito ou de outro, para esses filhos da puta. Não serão só as vitimas e a mãe natureza os únicos penalizados. Tenho certeza que a hora dos reais culpados vai chegar. Todo respeito aos que sofreram e sofrem com esse desastre, e que não deixemos, nós, o povo brasileiro, isso passar impune.

Marco: O ser humano está cada vez mais destruindo e explorando a terra, a natureza, os animais. E acredito que esse seja mais um reflexo da natureza retribuindo o nosso “carinho” com ela.

 

 

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Sobre o recente trabalho: “Opressor”, lançado em 2014:

HW – 4 – Vocês receberam criticas muito positivas sobre esse trabalho, foi inclusive eleito o “Melhor Álbum Nacional de Rock de 2014” pelos leitores da Heavynroll. Conte-nos um pouco sobre o processo de criação das canções?

Marco: Nosso processo de criação é bem variado. Sempre estamos gravando e arquivando novas idéias de riffs, letras, levadas… A partir daí, normalmente o Manu se encarrega de ir organizando esses arquivos e ao poucos vamos trazendo essas idéias para os ensaios. Outra coisa que fazemos muito no processo de composição são os ensaios acústicos, para casar bem as cordas, deixar a cozinha bem coesa, e quando a música estiver bem estruturada, vamos para a parte elétrica e barulhenta.

Manu: O Uganga sempre compôs de uma maneira democrática, mas acho que antes a coisa era mais “caótica” e, talvez por isso, alguns trabalhos, a meu ver, tenham músicas incompletas. Creio que ideias tem etapas, tipo na pintura, arquitetura… Não dá pra se empolgar com o primeiro esboço e não finalizar o quadro, saca?  Do “Vol.03…” pra frente acho que pegamos nossa forma de compor, de filtrar as ideias e ir no ponto. Descobrimos nosso “modus operandi”, e espero que sigamos assim, pois foi um caminho árduo.

Raphael “Ras” Franco: Na verdade não seguimos regras pra criar, e um exemplo disso é que qualquer um de nós tem liberdade pra apresentar um riff ou uma letra ou uma levada de baixo ou bateria. Isso colabora muito com o crescimento musical da banda, pois ninguém toca com a mesma pegada. Então quando eu crio um riff de guitarra isso vai levar os guitarristas a exercitarem aquele tipo de pegada e assim por diante.

 

HW – 5 – Como foi trabalhar ao lado de Murillo Leite (Genocídio) e Ralf Klein (Macbeth), que participaram da faixa “Who are the true?” – versão de Vulcano (metal extremo sul americano)?

Marco: Conhecemos o Macbeth na Alemanha, durante nossa primeira tour na Europa em 2010. Ficamos amigos, rolou uma interação bem legal entre as bandas e foi foda ter o Ralf participando do nosso cd. O cara toca muito, fez um solo matador, e o Macbeth é uma banda que respeitamos muito, pelo seu som e sua história.

Manu: Tem que ter uma aproximação positiva pra esse tipo de parceria, e com os alemães rolou uma amizade real que dura até hoje, além é claro da admiração mútua. Os caras detonam! Devemos tocar juntos na Europa em 2017, espero de verdade que role.  Já o Murillo chamei pois sou muito fã do Genocídio, de todas as fases, e acho o estilo dele foda. Ficou massa, um solo mais thrash do Christian, um mais metal clássico do Ralf e o do Murillo mais noise. Ter a aprovação dos caras do Vulcano pra nossa versão foi a cereja do bolo!

 

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HW – 6 – É notável a evolução musical neste álbum, percebe-se a preocupação com a harmonização, o momento e espaço de cada um está posicionado perfeitamente. Como foi a mixagem e produção dessa ‘sonzera’?

Ras: Acho que essa harmonização vem da forma como nos enxergamos dentro da banda. Ninguém tem que aparecer mais que ninguém e nos casos onde alguém se destaca com certeza é uma decisão onde todos opinam. A gente sempre tenta ir pro estúdio com uma pré-produção que seja o mais próximo possível do que a gente pensa pras músicas isso, facilita pra banda e também pra quem vai gravar. O disco foi gravado em partes, primeiro baixo e batera, na outra semana as guitarras e um pouco mais pra frente as vozes, então não existiram momentos de tumulto e stress dentro do estúdio, tipo o cara gravando e a banda inteira em volta. Quando terminamos de gravar os vocais, o Gustavo Vazquez (produtor) já nos apresentou uma pré-mix que ouvimos incontáveis vezes e fizemos nossas considerações e fomos ajustando tudo.

Manu: Chegamos no estúdio com 90% do material definido após horas e horas de pré-produção, e os outros 10% finalizamos com o Gustavo. Buscávamos um som poderoso e “na cara”, sem maquiagens, e felizmente alcançamos nossa meta. Ele cuidou de toda parte de captação, mixagem e masterização e também está envolvido no nosso DVD de 20 anos.

 

HW – 7 – Como de costume, vocês lançaram letras pesadas e densas, abrangendo diversos assuntos, trabalhados individualmente, com uma sutil conversa entre elas. Ultimamente, vemos muitas bandas lançarem álbuns conceituais, baseados em um tema central. O que acham dessa ideia?

Manu: Acho interessante, mas por hora não vejo acontecendo com o Uganga. Gosto de conectar determinadas letras a um tema central, mas contando várias histórias e não uma só. No futuro, quem sabe? O mais perto que cheguei disso até agora foi na música “O Primeiro Inquilino” do “Vol.03…” que terá mais duas partes a serem lançadas quando o resto da história “vier” (risos). No caso do “Opressor”, existe uma conexão clara de todas as letras ao tema central, mas a partir daí cada uma se desenvolve dentro de uma estética e pode ser interpretada de diferentes maneiras por cada um.

 

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HW – 8 – Em abril de 2015, Maurício “Murcego” Pergentino entra para a família, como vocês dizem, Uganga. Um terceiro guitarrista. Como foi essa integração? O que podemos esperar dessa união?

Manu: A integração se deu de forma totalmente não planejada. Christian teve que se ausentar dos palcos por um ano para fazer um tratamento e resolvemos seguir tocando com alguém convidado, já que o “Opressor” tinha saído há pouco. Optamos pelo Murcego por vários fatores, o cara é nosso amigo, conhece a banda desde o início e toca muito. Além de tudo é um sujeito bastante calmo e que leva música a sério, não está nessa de passagem.  Rolou que ele trouxe uma pegada mais clássica pras músicas que soou muito bem, ele tem mais referências do hard anos 70 em comparação a formação mais thrash/moderna do Christian e Thiago. Todos curtiram a ‘vibe’, tanto musical quanto pessoal, e ai eu trouxe a ideia das três guitarras. O Christian é parte essencial da sonoridade do Uganga desde o início, o Thiago também se mostrou um compositor de mão cheia e uma presença forte nos shows e agora temos o Murcego que também compõe, sola com um puta feeling e faz backings animais junto com o Ras. O time está mais forte e segue evoluindo. Se as pessoas pensam que nosso próximo trabalho terá uma overdose de guitarras, estão enganadas, pois em nossa música tudo tem que vir na hora certa sem espaço pra ego ou tocar por tocar. A cozinha é muito importante no Uganga e não só pano de fundo. Idem com os vocais. Trabalhamos em função da composição.

 

HW – 9 – Com mais de 20 anos de carreira, devem ter passado por muita coisa dentro do cenário nacional e internacional. Como avaliam esses cenários atualmente?

Manu: É a mesma coisa cara, fases melhores, outras nem tanto.  A peneira vai funcionando e os oportunistas logo pedem água (risos). Vejo excelentes bandas novas e vários grupos das antigas ainda sendo muito relevantes. Como sempre rolou.

Ras: Realmente já passamos muita coisa boa, mas muita coisa bizarra também. Acho que isso tem melhorado. As estruturas dos bares e festivais têm melhorado e os produtores idem. Alguns (risos). Vejo uma preocupação maior em dar melhores condições para que as bandas possam fazer shows com mais qualidade. Ainda precisa melhorar, mas estamos indo na direção certa.

 

HW – 10 – Deixem um recado para os leitores do Heavy World.

Marco: Apoie a cena independente. Vá a shows, leia fanzines, compre Cds, compre merch das bandas, apoie marcas independentes.

Manu: Seja sempre você, dê um foda-se pras modinhas musicais, estéticas e siga seu coração. Na hora “h”, hype nenhum vai te salvar (risos). Um salve aos homens e mulheres de bem.

Ras: Salve!

Mais Informações:
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Matéria enviada por Lucas Amorim

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